O Prato de lentilha.
*Adriana A. C. A. Oliveira
“...Rebeca porém amava a Jacó...
Tinha Jacó feito um cozinhado, quando, esmorecido, veio do campo Esaú, e lhe disse: peço-te que me deixes comer um pouco desse cozinahdo vermelho, pois estou esmorecido. Daí chamar-se Edom.
Disse Jacó: vende-me primeiro o teu direito de primogenitura.
Ele respondeu: estou a ponto de morrer; de que me aproveitará o direito de primogenitura?
Então disse Jacó: jura-me primeiro. Ele jurou, e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó.
Deu, pois, Jacó a Esaú pão e o cozinhado de lentilhas; ele comeu e bebeu, levantou-se e saiu. Assim desprezou Esaú o seu direito de primogenitura.” Gn. 25: 28-34
Não sei exatamente o que quero atingir com esta análise. Se penso que posso polemizar uma discussão comum a respeito de sexo ou se polemizando o assunto, tento conscientizar o caro leitor de um diagnóstico de enfermidade social. E se, a partir da conscientização, quero propor algo na direção da cura, ou me contentar em denunciar o crime moral e apenas registrar meu repúdio, sendo assim até uma arma de defesa, diante do assédio cultural.
Algo sei. Quero um leitor provocado. Um leitor instigado a pensar, antes de vender sua primogenitura. Talvez eu queresse apenas ter sido advogada de Esaú. Dizer-lhe: Esaú, Esaú... acorde!!!
Eu não considero apologia ao sexo o problema da humanidade, mas caro leitor, considere comigo o curso natural da vida. Nascemos, crescemos, (re)produzimos e morremos. Curso ideal para as plantinhas, já o nosso se faz com livre arbítrio. Não escolho nascer, nem crescer e morrer fisicamente, mas (re)produzir, crescer em valor e morrer moral e espiritualmente, estes são escolhas.
A mulher lentilha. Nem apologia à mulher é o problema, embora não desconsidero suas consequências também desastrosas na sociedade, contudo Jacó é um personagem que quer ganhar vantagem, abstrair de quem tem o que ele tanto almeja: direito, escolha, liberdade, herdades, reconhecimento e poder. Tudo isso na sopa de lentilha? Nada disso. Não são moedas correntes. A sopa é vazia. A proposta de troca não é nem de longe justa. Perder dupla herança é entregar tudo o que Jacó desejou. A sopa de primogenitura sim, esta era completa.
Se o sexo continua sendo considerado pela maioria como 50% da relação conjugal, não sei. Talvez o censo comum julgue um pouco mais, talvez os estudiosos do assunto julgue um pouco mais, ou quem sabe menos. A estatística não vem ao caso. Pesar sexo na balança da relação conjugal já é arriscado por si só.
A mulher lentilha. Então falemos de vez sobre ela. Se falo ao leitor do sexo feminino, inicio desde já pedindo sinceras desculpas, porque vou provocar um pensamento novo, mas lhe garanto, não vou comprar seu livre arbítrio, não pretendo. Palavras estão sendo usadas como moeda corrente, com discursos persuasivos aos que não detém o entendimento do que ouvem, ou do que leem. Não é este meu propósito. Ao pensar criticamente, absorva o que lhe servir apenas. Duvide do que não lhe ficar claro, pesquise, leia outros escritores, mas por favor, pelo menos saia da inércia, recuse não fazer nada diante do que irá ler.
Mas se o leitor é do sexo masculino, a você não dou chance alguma de não ser provocado. A menos que o seu livre arbítrio já tenha feito de maneira consciente a decisão de comprar o prato de lentilha. Se não advoguei em favor de Jacó, deixe-me fazê-lo por você, de graça, sem custos, nem honorários. Não costumo prestar consultoria de graça. Devo realmente estar muito interessada em arrancar de você um pensamento novo, uma reinvenção do conceito de vida a dois e por consequência de família e maior consequência advinda, uma sociedade diferente da que se nos propõe.
No Eden, a proposta era de uma relação muito amorosa. Em Edom, a proposta fora muito comercial. Jacó e Esaú, irmãos gêmeos. Não marido e mulher, mas sanguíneamente muito próximos. Marido e mulher, no Eden, composições de uma mesma matéria, que fosse pedaço de costela ou outro qualquer. Sangues, células também muito próximas. E o que isso tem a ver com escolhas? O que isso tem a ver com redefinir relacionamentos?
Um homem cansado, faminto, ao fim de uma jornada de trabalho exaustivo não é condição única de Esaú. Querer um prato quente, saboroso, cheiroso, apetitoso e saciador é condição de todo ser humano. O prato de preferência, além de saciar, convém sustentar por algum tempo. Do contrário contetaríamos com saladas verdes e frias.
Mas Esaú frisou bem: quero o prato avermelhado! Este me supre.
Exausto de trabalhar. Sempre temos estado assim. Jacó não tinha numa geladeira cerveja gelada, nem Coca-Cola. Caso tivesse, completaria a boa venda que fizera. Além de saciar, o prato pode vir acompanhado de algo refrescante, que te faça esquecer o árduo trabalho. Refresca, apaga, alivia. E precisa ser por um tempo pelo menos suficiente a lhe dar condições de aguardar a próxima refeição.
Então você vai para casa. Mas a caminho de casa você encontra Jacó. Como isso é bom! Jacó deve ter um prato para te satisfazer. E tem. E você se sacia. Daí acaba de chegar em casa cheio, mas lembre-se, é só até aguentar a hora da próxima refeição. Lá a esposa também chega. Os filhos lá já estão. Já chegaram de sua rotina também. A esposa possivelmente já se saciou também. Ou talvez resistiu a mais um prato. E se resistiu chegou em casa com fome. Os filhos sempre estão com fome. Eles até comem algo na rua, mas querem decisivamente comer junto com os pais. Mesmo que a família contemporânea não coma junto mais, algum momento em que os filhos queiram comer em casa, preferem estar com os pais. Ainda que comam esparramados cada um na frente de uma TV, mas querem ver ali seus pais. Os pais. Se o pai "desviou-se da Jacó", isso não lhe fez chegar em casa cheio. Pelo contrário! Está faminto!!! Cansado, exausto e quer "um prato que sacie", uma cerveja que refresque, ou Coca-Cola estupidamente gelada, se por profissão de fé não ingira bebida alcoólica.
Esse encontro é majestoso. É desastroso também. Se olhamos um para o outro ainda, percebemos fomes iguais, com poucas expectativas de saciar-se. Fomes intensas de acolhimento e descanso. Nem conversar queremos, quando chegamos. O casal recria forças e dispensa às vezes um pouco de atenção aos filhos. E cada vez mais se torna “às vezes”. Os filhos já vão deixando a espera de serem saciados de carinho. Passam a mão no play station, no celular, no "qualquer coisa" e vão reinventar formas de se saciar. E se conversar na chegada não é conveniente, vamos refrescar a memória fazendo algo também. Algo que não será bem um prato de lentilha, mas que amenize um pouco.
A fome não saciada é o problema real. Se você aceita logo o prato de Jacó, presume-se que ao chegar em casa estará bem! Mas você descobre com o passar do tempo, que Jacó te vendeu apenas um prato de lentilha! Sustentou por algumas horas. Não dura para sempre! Você descobre que a fome saciou-se, é verdade, porém ela volta cada vez mais intensa. Mais trabalho, mais pressão, mais cansaço, mais cobranças. De repente você pensa: que tal discutir a relação? Ele não quer. Ela deixou de querer. Os filhos também. Conseguiram se distrair nas redes sociais.
Faz efeito até quando? Você já não tem mais certeza se Jacó é melhor, se sua esposa... está tudo tão confuso. Aquele trapaceiro não me vende barato... e minha mulher começou a ter surtos psicóticos de verdade depois das drogas para emagrecer, dormir, acordar...
A mulher lentilha tenta todos os dias vender-se mais barato do que Jacó! Está ficando cada dia mais repaginada. Não pode virar paniquete. Esta cena roubaria a das filhas que cresceram. É uma concorrência desleal. Haja silicone e lipo para concorrer com elas! Mas meu marido nem aprecia mais. Achou uma colega de trabalho com quem ele conversa!!! Eu pensei que de boca fechada servia, mas a danada é boa de papo!!! E pensando bem eu tenho um colega de trabalho que há tanto tempo conversa comigo! Nossa, já somos amigos íntimos!!! Mas acho que eu tenho que continuar malhando e usando Mary Kay! O colega é dez anos mais jovem que meu marido!
Bem. Os filhos cresceram. O casal nem se deu conta. Os anos passaram, mas o serviço não diminuiu e acredite, as contas para pagar aumentaram generosamente. Isaque e Rebeca nem se deram conta do quanto os irmãos eram diferentes, muito menos perceberam que os educaram para concorrer um com o outro.
Eu continuo não sabendo exatamente, caro leitor, a provocação aonde vai dar, mas tenho que encerrar dizendo que fazer do sexo a alimentação das nossas relações e compensando nos programas televisivos e intenéticos o que aspiramos e não temos, já está comprovado que adoeceu nossa sociedade. Se a de Isaque e Rebeca foi menos doente também não sei. O que acredito piamente é que filhos delinquentes tem pais sexomaníacos e evazivos.
Perdão a afirmativa sem pesquisa e resultado científico, mas se você também está refém de dados comprovados, faça você mesmo suas leituras. Dê uma olhadinha para fora da janela. Circule em alguma imediação escolar. Ouça um pouco do que adolescentes conversam quando saem da escola. E se tiver coragem, pergunte a um deles onde está seu pai e sua mãe, o que fazem, quanto tempo passam juntos, sobre o que conversam, se é que conversam.
Falei do caminho para a cura. Ainda fico com o de Jacó. Os pais não se concertaram, mas ele resolveu mudar de vida. Não tinha como devolver o que roubou do irmão, mas decidiu pensar e fazer diferente. Rebeca deve ter sido a mesma até morrer, mãe interesseira e confusa em seus valores. Você, leitora, pode decidir namorar seu marido, sem medir seu sucesso com as medidas padrões do prato de lentilha. Não precisa concentrar toda sua força na aceitação do marido. Você se realiza também sendo uma mãe amiga, uma mãe educadora, de valores, presente, ainda que um pouquinho, mas com dignidade. E se propuserem uma mudança juntos, vão reaprender o valor do abraço, de passear de mãos dadas. Vão até entender o quanto vale isso para vocês, para seus filhos, para quem estiver vendo. Ajude aos outros também a rever o valor do sexo no casamento.
A cerveja refresca sempre, é altamente diurética, mas dá sono. Se você tem pouco tempo para conversar, durma menos um pouquinho. Converse com seus filhos mais! Converse com seu esposo, esposa mais! Reaprender é difícil, mas é necessário e possível. Não é um conceito de auto-ajuda. É possível, quando você decide o que Jacó decidiu.
Ele entendeu que não era capaz sozinho. Ele aceitou ajuda. Ele ouviu a Deus. O nosso criador sabe nos refazer sempre que necessário. Assim tem sido comigo. Eu deixo o desafio de pensar e se você pensar de verdade, já estou feliz por você, por sua família, por mim, pela sociedade de hoje e de amanhã. Todos vão ganhar com certeza.
* Adriana Aparecida Costa Almeida Oliveira – Gestora de Comunicação como Profissional Liberal, Parceira da Empresa Casa Real imagem - Designer - Foto - Cerimonial - Assessoria de Comunicação, Graduanda da Pós-Graduação - Especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás – UFG. Bacharel em Comunicação Social – Habilitação em Relações Públicas pela mesma Universidade. Twitter: @adriasophrosyne e-mail: dri.relacoespublicas@gmail.com
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